Brigitte Bardot | E deus criou a mulher

Uma das minhas funções na Setembro Propaganda, início dos anos 90, era cuidar do acervo bibliográfico da agência, incluindo o arquivo de peças e uma relação de livros de cinema, publicidade, marketing e negócios. Em uma destas tardes ociosas – minha outra função era revisor que trabalha muito mais à noite – encontrei e li quase de uma vez As memórias de Roger Vadin. Bardot, Deneuve e Fonda. No livro, o cineasta rememora em tons picantes seu casamento com três das atrizes mais bonitas do cinema.

Roger Vadin é o diretor de E Deus criou a mulher (1956), filme que praticamente apresentou ao mundo (em todas as suas formas) a notável beleza de Brigitte Bardot. Há muitos anos não revejo o filme, mas continuam marcadas as cenas da atriz dançando descalça no bar e nua entre lençóis secando ao sol. Bardot virou um símbolo a partir daí, seu nome se confundindo com o próprio nome do filme, o erotismo ligado eternamente às suas imagens: “… a Bardot sexual eternamente em movimento no filme E Deus criou a mulher (1956) de Vadim.”

A frase é de Robert Stam, em A literatura através do cinema (2008). O autor analisa o fenômeno Bardot no capítulo sobre a nouvelle vague, especificamente sobre sua atuação em O desprezo (1963), de Godard:

“Embora o diretor e críticos do Cahiers prestigiassem Bardot como atriz em suas críticas, eles raramente a haviam incluído no elenco de seus filmes. Ela não era uma ‘musa’ como Bernadette Lafont, Ana Karina ou Jeanne Moreau. Ao mesmo tempo, Brigitte Bardot simbolizava a ‘nova mulher’, livre e liberada da França pós-guerra, geralmente na sua versão solteira, sexualmente disponível, mas, desta vez, em sua versão casada. Godard se valeu daquilo que os críticos haviam admirado nas representações de Bardot – sua naturalidade e espontaneidade – uma forma de atuar que não parecia uma atuação. No entanto, ao mesmo tempo, ele joga contra a ‘mítica BB’ para enfatizar a Bardot doméstica, do cotidiano, no papel de Camille, que, diferentemente da maioria dos personagens de Bardot, desafia com a sua falta de interesse no sexo. Tampouco ela é uma esposa submissa: diferente da Juliette em E Deus criou a mulher, que aceita as bofetadas de domesticação de seu marido, Camille devolve o tapa e despreza Paulo ainda mais quando ele fica violento.”

Livros sobre cinema nos remetem a estas memórias imagéticas, lembranças de cenas, frases, momentos antológicos de personagens como Juliette (Bardot) dançando descalça em cima da mesa. Livros sobre cinema também despertam sentimentos como a mais pura inveja do Roger Vadin casado com Brigitte Bardot, Catherine Deneuve e Jane Fonda.

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