A saga do cinema brasileiro

A invasão de Amanhecer, terceiro filme da Saga Crepúsculo, nos cinemas brasileiros, ocupando 50% do total das salas do país, comprova o domínio secular do cinema americano em nosso mercado. Na semana de estreia do filme, participei de um debate com o cineasta mineiro Sérgio Borges. Seu primeiro longa-metragem, O céu sobre os ombros (premiado no Festival de Brasília/2010) entrou em cartaz no mesmo dia de Amanhecer, ocupando três salas de exibição no país. E o filme só chegou aos cinemas após o autor entrar em projetos de captação de recursos para exibição, ou seja, a saga dos cineastas brasileiros hoje são os editais de incentivos culturais. Busca-se incentivo para produzir, para finalizar, para distribuir e exibir.

Gustavo Dahl, cineasta e crítico, analisa em ensaio para o Observatório Itaú Cultural (2010) a submissão de nosso modelo de exibição à indústria americana. “O Brasil é extremamente despovoado de salas de exibição. Nos países desenvolvidos há uma sala para cada 10.000 ou 20.000 habitantes, no nosso há uma para cada 125.000 habitantes. No Brasil, este mercado exibidor, que há poucas décadas era três vezes maior, encontra-se ocupado em mais de 90% pelo produto concorrente do filme brasileiro: a produção industrial norte-americana.”

A partir dos anos 80, segundo Gustavo Dahl, começou o processo de concentração das salas nos centros comerciais das grandes cidades. “As salas de exibição do Brasil profundo, distantes do litoral, bem como aquelas da periferia das grandes concentrações urbanas, com seu público empobrecido pela corrosão da moeda e pelo arrocho salarial, deixaram de se tornar interessantes. O que se seguiu foi a drástica redução do mercado exibidor, concentrado então nos bairros ricos das capitais e das grandes cidades. Nos shoppings centers, o produto cinematográfico elitizou seu público, abandonando o segmento inferior da pirâmide social. Justamente onde se viabilizava o cinema industrial brasileiro.”

O ensaio retrata o quadro caótico da cinematografia brasileira quando chega ao estágios da distribuição e exibição. O sistema multiplex ocupa 60% do mercado de exibição, concentrando as salas em shoppings centers. A análise de Dahl coincide com reclamações de cineastas tradicionais, como Carlos Reincheback. Basicamente, a classe reivindica alguma forma de subsídio também no estrato da exibição, reaproximando o cinema das classes populares que historicamente prestigiaram o cinema brasileiro. Basta citar o sucesso de público de duas fases importantes de nosso cinema: a chanchada (anos 50) e a pornochanchada (anos 70/80).

A incursão da Globo Filmes no cinema, após a retomada, caminha no sentido de captar o grande público: filmes que associam o cinema à política do star system e à estética da TV Globo conseguem resultados expressivos de bilheteria. Estes filmes contam com o forte aparato de marketing da indústria de comunicação, capaz de mobilizar o público através de estratégias de sedução que envolvem as mais diversas mídias, todas ancoradas no conglomerado Globo de Comunicação. Cabe ao restante do cinema brasileiro, principalmente o chamado cinema independente, se submeter à desgastante maratona das Leis de Incentivos, em suas diversas instâncias. E depois contar com o prestígio dos prêmios em festivais, rezando para que distribuidores vejam nos filmes, além de cultura e arte, o irresístivel potencial comercial. Na maioria das vezes isto não acontece. O resultado é a equação que concentra as maiores críticas ao sistema de incentivo do cinema brasileiro: gasta-se muito dinheiro em filmes que quase ninguém vê.

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