No post anterior, comentei o fato de encerrar minha dissertação de mestrado com análise do filme A rosa púrpura do Cairo. Abaixo, edição do texto em questão:
Certos executivos do cinema ainda não descobriram que a magia do cinema está na conjugação do olhar e do desejo, sentimentos que Woody Allen traduziu em A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, EUA, 1985).
O filme conta aquelas histórias ingênuas, capazes de encantar pela simplicidade: Cecilia (Mia Farrow) é uma dona de casa entediada de New Jersey que em plena época da depressão nos Estados Unidos vai várias vezes ao cinema assistir a A Rosa Púrpura do Cairo. Um dia, Tom Baxter (Jeff Daniels), personagem principal da história, está interpretando normalmente seu texto. De repente, seus olhos se voltam para a platéia do cinema. Ele olha para Cecilia rapidamente, desvia os olhos, continua a interpretar, mas acaba se voltando para ela com o olhar fixo. Cecilia sente o olhar, sem entender. Tom Baxter, então, diz:
- Meu Deus! Você deve adorar este filme. Ficou aqui o dia todo. E já a vi duas outras vezes.
- Eu? – pergunta Cecilia, atônita.
- Isso. Você. É a quinta vez que vê este filme. Preciso lhe falar. – Tom Baxter sai da tela e invade a sala de exibição. O ator pega Cecília pela mão e os dois saem do cinema. Eles percorrem a cidade, tudo é novidade para o ator. Ele não quer mais voltar, está apaixonado por Cecilia. Espectadora e personagem concretizam seu caso de amor. Mas Gill Shepard, ator que interpreta Tom Baxter no filme, é chamado de Hollywood para resolver a situação.
Gill vai para a pequena cidade em busca de sua personagem, conhece Cecilia e também se apaixona por ela. Sonho e realidade, filme dentro do filme, um estranho triângulo amoroso: Cecilia ama o ator de carne e osso ou a personagem que ele interpreta em A Rosa Púrpura do Cairo?
Em determinado momento do filme, a situação se inverte: Tom Baxter leva Cecilia para dentro da tela. Ela invade o cinema, interfere na trama, as outras personagens reclamam: “você está do lado errado da tela”, “isto não estava no roteiro”. Ela vive seu dia de sonho: vai ao Copacabana Palace, assiste a uma apresentação de gala, toma champagne e muda a história do filme a que tantas vezes assistira. Depois, volta com Tom para o quarto de hotel. Estão sozinhos. Ela diz:
- Sempre sonhei como seria a vida deste lado da tela. – Tom a beija e eles ouvem alguém chamando. Gill Sheppard, o ator de verdade, está na sala de exibição assistindo-os.
Cecilia e Tom saem de novo da tela e os três conversam na sala de cinema: as cadeiras vazias, Cecilia, Tom Baxter e Gill Sheppard no corredor. Os dois estão apaixonados por ela. Cecilia tem que se decidir. As personagens da tela começam a chegar no quarto de hotel e ouvem a discussão, chegam a opinar sobre a escolha de Cecilia. O princípio do cinema invertido: as personagens do filme de olhos fixos na sala de exibição, vivendo e sofrendo com o desfecho da história. Sheppard, o ator, diz a Cecilia que a ama. Cecilia volta-se para Tom, a personagem e diz:
- Procure entender Tom, no seu mundo tudo acaba dando certo. Sou um ser humano, tenho que escolher o mundo real, apesar da tentação.
Tom volta para dentro da tela. Cecilia e Sheppard saem da sala, as personagens também vão deixando a sala do hotel em que estavam. Fica o vazio, dentro e fora do cinema, personagens e público não vivem um sem o outro. Na última cena do filme, Woody Allen reconcilia-os e faz sua declaração de amor ao cinema.
Cecilia vai em casa buscar suas malas para ir embora com Sheppard. O encontro foi marcado para a porta do cinema. Ela chega, um homem está trocando os letreiros da fachada. O gerente sai do cinema e conversa com Cecília, dizendo a ela que Gill Sheppard fora embora, voltara para Hollywood:
- Assim que Tom voltou para a tela, Gill já estava louco para ir embora. Disse que a carreira esteve por um triz. – o gerente vai embora e de longe, a avisa – Não se esqueça, Fred Astaire e Ginger Rogers estréiam hoje.
Corte para cena de Gill Sheppard no avião. Ele tem o semblante triste, pensativo. Começa a tocar a música “Cheek to Cheek”. Corte para cena do filme O Picolino (Top Hat, EUA, 1935,) de Mark Sandrick. Fred Astaire está cantando a música enquanto dança com Ginger Rogers.
Cecilia entra no cinema, ainda com as malas na mão, senta-se mas não olha para a tela. Fred Astaire agora dança com sua parceira. Como no início do filme, Cecilia está só, ela e o cinema. Tem o olhar baixo, fixo na cadeira ao seu lado. À medida que ouve a música, ela levanta os olhos e encara a tela. A câmara fixa-se em Cecilia, um close-up, mostrando as faces e o olhar da personagem voltando à vida. Fred Astaire canta e dança com Ginger Rogers. Cecilia olha, seus lábios esboçam um sorriso. É o olhar do espectador de cinema: impotente, mas apaixonado. O público pode não ter conseguido ainda entrar no cinema, participar, interferir. Mas o olhar de Cecilia na cena final de A Rosa Púrpura do Cairo mostra que o cinema sempre esteve dentro de nós.
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janeiro 30, 2012 às 9:09 am
Este filme me remete a musica “Vamos fazer um filme” de Renato Russo e por saber que ele era fan fervoroso de Woody Allen, não me estranharia em nada se esta musica não tivesse sido feita logo após ele ter assistido este filme.
De qualquer forma é uma obra simples que respeita o publico, alem de ser doce sem maiores melodramas e por for fim com uma profundidade absurda…