Brigitte Bardot | E deus criou a mulher

dezembro 19, 2011

Uma das minhas funções na Setembro Propaganda, início dos anos 90, era cuidar do acervo bibliográfico da agência, incluindo o arquivo de peças e uma relação de livros de cinema, publicidade, marketing e negócios. Em uma destas tardes ociosas – minha outra função era revisor que trabalha muito mais à noite – encontrei e li quase de uma vez As memórias de Roger Vadin. Bardot, Deneuve e Fonda. No livro, o cineasta rememora em tons picantes seu casamento com três das atrizes mais bonitas do cinema.

Roger Vadin é o diretor de E Deus criou a mulher (1956), filme que praticamente apresentou ao mundo (em todas as suas formas) a notável beleza de Brigitte Bardot. Há muitos anos não revejo o filme, mas continuam marcadas as cenas da atriz dançando descalça no bar e nua entre lençóis secando ao sol. Bardot virou um símbolo a partir daí, seu nome se confundindo com o próprio nome do filme, o erotismo ligado eternamente às suas imagens: “… a Bardot sexual eternamente em movimento no filme E Deus criou a mulher (1956) de Vadim.”

A frase é de Robert Stam, em A literatura através do cinema (2008). O autor analisa o fenômeno Bardot no capítulo sobre a nouvelle vague, especificamente sobre sua atuação em O desprezo (1963), de Godard:

“Embora o diretor e críticos do Cahiers prestigiassem Bardot como atriz em suas críticas, eles raramente a haviam incluído no elenco de seus filmes. Ela não era uma ‘musa’ como Bernadette Lafont, Ana Karina ou Jeanne Moreau. Ao mesmo tempo, Brigitte Bardot simbolizava a ‘nova mulher’, livre e liberada da França pós-guerra, geralmente na sua versão solteira, sexualmente disponível, mas, desta vez, em sua versão casada. Godard se valeu daquilo que os críticos haviam admirado nas representações de Bardot – sua naturalidade e espontaneidade – uma forma de atuar que não parecia uma atuação. No entanto, ao mesmo tempo, ele joga contra a ‘mítica BB’ para enfatizar a Bardot doméstica, do cotidiano, no papel de Camille, que, diferentemente da maioria dos personagens de Bardot, desafia com a sua falta de interesse no sexo. Tampouco ela é uma esposa submissa: diferente da Juliette em E Deus criou a mulher, que aceita as bofetadas de domesticação de seu marido, Camille devolve o tapa e despreza Paulo ainda mais quando ele fica violento.”

Livros sobre cinema nos remetem a estas memórias imagéticas, lembranças de cenas, frases, momentos antológicos de personagens como Juliette (Bardot) dançando descalça em cima da mesa. Livros sobre cinema também despertam sentimentos como a mais pura inveja do Roger Vadin casado com Brigitte Bardot, Catherine Deneuve e Jane Fonda.

Zé do Muro

dezembro 18, 2011

- Bate você… você.

Demorei um pouco a entender os gritos do técnico no meio da confusão de jogadores cercando o juiz na grande área. Wesley Batata já estava com a bola nas mãos, próximo à marca do pênalti. Zé do Muro continuava gritando.

- Bate você… você. – o dedo apontando para mim.

Acredito que nenhum dos jogadores do meu time, todos adolescentes entre 13 e 16 anos, sabia o nome depois de José, mas o bairro inteiro conhecia a origem do apelido. A rotina de Zé do Muro era simples: saía de casa por volta das três da tarde, descia a rua até o bar e bebia, com amigos ou sozinho, até o momento em que o dono do bar começava a abaixar as portas. Não é difícil imaginar a dificuldade em andar rua acima após essa longa jornada etílica. Ele andava dez ou quinze passos e apoiava o ombro no muro, esperava um pouco, andava mais alguns passos, encostava-se no muro novamente. Virou Zé do Muro.

Zé do Muro só era visto sóbrio duas vezes por semana: na sexta-feira, dia de treino do time de meninos da rua, e no jogo de domingo. As mãos trêmulas segurando o cigarro, gritando enraivecido por erros fundamentais como passes mal trocados. Depois dos treinos, a gente se sentava, Zé do Muro ao centro, a noite tomando conta do campo. Em cinco minutos de preleção, ele versava sobre preceitos que, ensinava, todos deveriam respeitar no futebol. Nunca chute a bola com o bico da chuteira; dribles só têm sentido na direção do gol, o resto é firula, provocação; não existe idiotice maior do que cruzar a bola da intermediária para a grande área, pois os zagueiros estão sempre de frente…

Eram 40 minutos do segundo tempo. O placar, 3 x 2 para o time adversário. Decisão do torneio Bola de Ouro, patrocinado pelo Bar do Careca. O empate levaria o jogo para a prorrogação. Wesley Batata já com a bola debaixo do braço. Zé do Muro continuou gritando até deixar claro a ordem: eu fizera os dois gols do meu time e deveria bater o pênalti. Peguei a bola das mãos de Wesley.

O morro atrás do gol estava cheio de torcedores: pais, mães, irmãos, parentes, vizinhos – manhãs de domingo de futebol. Respirei fundo, olhar fixo nos olhos do goleiro. Corri e um segundo antes desviei os olhos para a bola.

Naquela noite, caminhei sozinho pelo bairro. Andei por cerca de uma hora, as ruas quase desertas, passando pelos prédios que se erguiam na explosão imobiliária vertical daqueles anos 70. Ao voltar, quando virei a esquina da minha rua, vi um vulto encostado no muro a poucos metros de distância. Decidi atravessar para o outro lado, pensei, no estado em que está ele não vai me ver. Mas Zé do Muro começou a andar em passos acelerados, firmes, em poucos segundos estava na minha frente. Ele despenteou meus cabelos com a mão, sua voz soou clara e forte:

- Da próxima vez, olhe firme nos olhos do goleiro.

A seguir, voltou a caminhar. Quando abri o portão da minha casa, olhei para trás. Quase no fim da rua, iluminado pela luz do poste, Zé encostado no muro. Ele andou mais alguns passos, apoiu o ombro novamente no muro. Assim, de muro em muro até virar a esquina.

O falcão maltês (1941)

dezembro 16, 2011

Film posters of the 40s

A saga do cinema brasileiro

dezembro 12, 2011

A invasão de Amanhecer, terceiro filme da Saga Crepúsculo, nos cinemas brasileiros, ocupando 50% do total das salas do país, comprova o domínio secular do cinema americano em nosso mercado. Na semana de estreia do filme, participei de um debate com o cineasta mineiro Sérgio Borges. Seu primeiro longa-metragem, O céu sobre os ombros (premiado no Festival de Brasília/2010) entrou em cartaz no mesmo dia de Amanhecer, ocupando três salas de exibição no país. E o filme só chegou aos cinemas após o autor entrar em projetos de captação de recursos para exibição, ou seja, a saga dos cineastas brasileiros hoje são os editais de incentivos culturais. Busca-se incentivo para produzir, para finalizar, para distribuir e exibir.

Gustavo Dahl, cineasta e crítico, analisa em ensaio para o Observatório Itaú Cultural (2010) a submissão de nosso modelo de exibição à indústria americana. “O Brasil é extremamente despovoado de salas de exibição. Nos países desenvolvidos há uma sala para cada 10.000 ou 20.000 habitantes, no nosso há uma para cada 125.000 habitantes. No Brasil, este mercado exibidor, que há poucas décadas era três vezes maior, encontra-se ocupado em mais de 90% pelo produto concorrente do filme brasileiro: a produção industrial norte-americana.”

A partir dos anos 80, segundo Gustavo Dahl, começou o processo de concentração das salas nos centros comerciais das grandes cidades. “As salas de exibição do Brasil profundo, distantes do litoral, bem como aquelas da periferia das grandes concentrações urbanas, com seu público empobrecido pela corrosão da moeda e pelo arrocho salarial, deixaram de se tornar interessantes. O que se seguiu foi a drástica redução do mercado exibidor, concentrado então nos bairros ricos das capitais e das grandes cidades. Nos shoppings centers, o produto cinematográfico elitizou seu público, abandonando o segmento inferior da pirâmide social. Justamente onde se viabilizava o cinema industrial brasileiro.”

O ensaio retrata o quadro caótico da cinematografia brasileira quando chega ao estágios da distribuição e exibição. O sistema multiplex ocupa 60% do mercado de exibição, concentrando as salas em shoppings centers. A análise de Dahl coincide com reclamações de cineastas tradicionais, como Carlos Reincheback. Basicamente, a classe reivindica alguma forma de subsídio também no estrato da exibição, reaproximando o cinema das classes populares que historicamente prestigiaram o cinema brasileiro. Basta citar o sucesso de público de duas fases importantes de nosso cinema: a chanchada (anos 50) e a pornochanchada (anos 70/80).

A incursão da Globo Filmes no cinema, após a retomada, caminha no sentido de captar o grande público: filmes que associam o cinema à política do star system e à estética da TV Globo conseguem resultados expressivos de bilheteria. Estes filmes contam com o forte aparato de marketing da indústria de comunicação, capaz de mobilizar o público através de estratégias de sedução que envolvem as mais diversas mídias, todas ancoradas no conglomerado Globo de Comunicação. Cabe ao restante do cinema brasileiro, principalmente o chamado cinema independente, se submeter à desgastante maratona das Leis de Incentivos, em suas diversas instâncias. E depois contar com o prestígio dos prêmios em festivais, rezando para que distribuidores vejam nos filmes, além de cultura e arte, o irresístivel potencial comercial. Na maioria das vezes isto não acontece. O resultado é a equação que concentra as maiores críticas ao sistema de incentivo do cinema brasileiro: gasta-se muito dinheiro em filmes que quase ninguém vê.

A menina dos olhos distantes

dezembro 11, 2011

O vento entrou pela janela aliviando por segundos a temperatura deste setembro quente como há muito não se vê. A sensação térmica parece grudar o ar da noite em minha pele para sempre, como manchas de sol que não se vão. Há um segundo motivo que me prende agora em frente à janela, tentando sentir uma brisa sequer. Ontem à noite, voltando da farmácia do bairro, a lua cheia surpreendeu, despontando acima dos prédios. Imaginei esta vista da sala de jantar de meu apartamento, onde tenho o hábito de me sentar para escrever ou navegar pela internet. Tomei o cuidado de olhar o relógio: 20 horas. Hoje sei que entre uma noite e outra a lua nasce com um intervalo de uma hora.

Liguei o computador por volta de 20h30, sabendo que teria cerca de meia hora até a lua surgir atrás dos prédios.

- Tem certeza que teremos lua cheia novamente esta noite? Este vento está me congelando. – disse Anne.

Há quase uma hora estávamos sentados em frente ao mar, um pequeno grupo de adolescentes espalhados pela areia, olhos presos na escuridão e na espuma branca das ondas. Eu tinha visto a lua nascer atrás das dunas na noite anterior e chamei o pequeno grupo de amigos para sentarmos na areia. Sem saber deste intervalo de tempo, ficamos cerca de uma hora esperando, o vento frio de julho cortando, levantando com agressividade os cabelos de Anne. Ela debruçou o corpo sobre os joelhos, tentando frear o movimento do vento. Seus olhos parados na areia, o dedo riscando imagens sem sentido.

Foi nesta mesma posição que a vi pela primeira vez, sentada à minha frente na praia quase deserta de Tucuns, três dias antes, naquela manhã de 1981. Um cachorro pequinês correu em direção a ela. Anne se levantou, jogou os longos cabelos pretos para trás, chegavam quase à cintura de um corpo magro, sem contornos definidos. Era ainda uma menina em formação, a ingenuidade transparecendo no seu jeito de correr em direção à água, nos seus olhos sempre distantes.

Não me lembro mais se paixões adolescentes nascem assim, de imediato. Podem ser questões científicas de hormônios, mas prefiro pensar em manhãs à beira-mar, em uma linda menina brincando com seu cachorro, na lua nascendo vermelha, o rastro iluminando o mar, dedos se entrelaçando, roçar de braços, a cabeça caída em meu ombro à medida que a lua deixava às águas e ocupava seu espaço imponente.

Escrevo hoje, contemplando outra lua cheia, pensando em Anne. A menina que brincava com dedos na areia e trocou seu primeiro beijo ao luar, como deveriam ser todos os primeiros beijos.

Cinéfilos

dezembro 9, 2011

Ontem pela manhã comprei, na banca de revistas, três DVDs com filmes duplos: quatro filmes de Tarzan, todos interpretados por Johnny Weissmuller, e dois faroestes, um com John Wayne, outro com Randolph Scott.

Minutos depois, me dei conta da coincidência: meu pai estaria completando nesta data 78 anos. Coisa do inconsciente, intuição, sei lá, os filmes entram na conta de uma pequena homenagem ao cinéfilo mais eclético que conheci.

Lembro-me de uma foto do pai em frente ao Cine Brasil, lá pelos anos 50, uma longa fila atrás formada por cavalheiros e damas vestidos à rigor, como o cinema daqueles anos merecia. O filme poderia tanto ser um bom melodrama de Douglas Sirk, quanto um inigualável Hitchcock. Ao longo da vida, o pai transitou com desenvoltura entre John Ford e Ingmar Bergman, por exemplo. Ele vivia dentro do cinema, um filme por dia era seu lema, como um mantra.

Não é difícil imaginar o fascínio daquelas noites, o pai se deixando levar por imagens de Ingrid Bergman, Gary Cooper, Ava Gardner, Cary Grant, Sophia Loren. Aprendi todos estes nomes ainda na infância, era o alfabeto que o pai soletrava. Foi nesta cartilha que me ensinou: uma lista infindável de diretores, atores e atrizes, filmes.

Lembro-me que o pai nunca conseguia pronunciar o nome de Johnny Weissmuller, sua língua titubeava entre ueis…, uaiss… se decidia por vesmuler, dizendo como desculpa que fugiu da escola ainda no primário. Mas poucas pessoas no mundo entendiam o verdadeiro significado do grito de Tarzan ecoando no cinema.

Contra o tempo

dezembro 5, 2011

Meu primeiro contato com a ideia de universos pararelos aconteceu na infância, assistindo à eternizada série Jornada nas estrelas. Em um marcante  episódio, a tripulação comandada pelo Capitão Kirk enfrenta seus inimagináveis duplos. O espelho é o reflexo do mal, o universo paralelo à Enterprise guarda o lado negro dos personagens. Uma sucessão de golpes, traições e assassinatos faz o poder mudar de mãos na Enterprise, todos liderando pelo terror, inclusive Spock. Voltar no tempo, cair em dimensões alternativas, interferir no destino, são temáticas comuns a Jornada nas estrelas e a diversas outras séries e filmes.

Contra o tempo (Source Code , EUA,  2011), de Duncan Jones, é uma espécie de mistura destas temáticas. O capitão Colter Stevens (Jake Gyllenhall) é enviado ao passado recentíssimo (da tarde para a manhã do mesmo dia) para descobrir a identidade de um terrorista que explodiu um trem naquela manhã em Chicago. Ele tem 8 minutos para cumprir a missão. Quando o trem explode, ele volta ao ponto de origem e é reenviado para mais 8 minutos de tentativa. Pode-se ler no filme também uma analogia à linguagem do videogame:  a cada reenvio o protagonista conhece os erros e acertos das tentativas anteriores. E claro, você vai enxergar referências a outros filmes: Feitiço do tempo, Corra lola, corra, Matrix, Efeito borboleta… , com certeza, esqueci de outros filmes que transitam por ideias semelhantes.

Para mim, o mais intigante de Contra o tempo é exatamente esta confusa possibilidade de universos paralelos. Imagina-se que a cada interferência do capitão, destinos dos personagens são alterados e um novo futuro é criado. Algo assim  como mundos que correm lado a lado por linhas de trem que não se cruzam. Neste contexto, em uma história um personagem morre, na outra salta do trem antes do acidente, em uma terceira se apaixona por outro personagem e assim por diante.

O polonês Krzysztof Kieslowski trabalhou com perspectiva parecida em Acaso (Przypadek, Polônia, 1987). A corrida do personagem principal do filme na estação, tentando pular no trem, é o elo de ligação entre três possíveis destinos. Pequenos incidentes alteram o destino, simbolizando um novo começo e nova história a cada interferência. Mas as três histórias estão à nossa frente, como três caminhos diferentes. Pensando bem, a nossa imaginação dentro do cinema é recheada de universos paralelos.

A rosa púrpura do Cairo

novembro 29, 2011

No post anterior, comentei o fato de encerrar minha dissertação de mestrado com análise do filme A rosa púrpura do Cairo. Abaixo, edição do texto em questão:

Certos executivos do cinema ainda não descobriram que a magia do cinema está na conjugação do olhar e  do desejo, sentimentos que Woody Allen traduziu em A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, EUA, 1985).

O filme conta aquelas histórias ingênuas, capazes de encantar pela simplicidade: Cecilia (Mia Farrow) é uma dona de casa entediada de New Jersey que em plena época da depressão nos Estados Unidos vai várias vezes ao cinema assistir a A Rosa Púrpura do Cairo. Um dia, Tom Baxter (Jeff Daniels), personagem principal da história, está interpretando normalmente seu texto. De repente, seus olhos se voltam para a platéia do cinema. Ele olha para Cecilia rapidamente, desvia os olhos, continua a interpretar, mas acaba se voltando para ela com o olhar fixo. Cecilia sente o olhar, sem entender. Tom Baxter, então, diz:

-        Meu Deus! Você deve adorar este filme. Ficou aqui o dia todo. E já a vi duas outras vezes.

-        Eu? – pergunta Cecilia, atônita.

-        Isso. Você. É a quinta vez que vê este filme. Preciso lhe falar. – Tom Baxter sai da tela e invade a sala de exibição. O ator pega Cecília pela mão e os dois saem do cinema. Eles percorrem a cidade, tudo é novidade para o ator. Ele não quer mais voltar, está apaixonado por Cecilia. Espectadora e personagem concretizam seu caso de amor. Mas Gill Shepard, ator que interpreta Tom Baxter no filme, é chamado de Hollywood para resolver a situação.

Gill vai para a pequena cidade em busca de sua personagem, conhece Cecilia e também se apaixona por ela. Sonho e realidade, filme dentro do filme, um estranho triângulo amoroso: Cecilia ama o ator de carne e osso ou a personagem que ele interpreta em A Rosa Púrpura do Cairo?

Em determinado momento do filme, a situação se inverte: Tom Baxter leva Cecilia para dentro da tela. Ela invade o cinema, interfere na trama, as outras personagens reclamam: “você está do lado errado da tela”, “isto não estava no roteiro”. Ela vive seu dia de sonho: vai ao Copacabana Palace, assiste a uma apresentação de gala, toma champagne e muda a história do filme a que tantas vezes assistira. Depois,  volta com Tom para o quarto de hotel. Estão sozinhos. Ela diz:

-        Sempre sonhei como seria a vida deste lado da tela. – Tom a beija e eles ouvem alguém chamando. Gill Sheppard, o ator de verdade, está na sala de exibição assistindo-os.

Cecilia e Tom saem de novo da tela e os três conversam na sala de cinema: as cadeiras vazias, Cecilia, Tom Baxter e Gill Sheppard no corredor. Os dois estão apaixonados por ela. Cecilia tem que se decidir. As personagens da tela começam a chegar no quarto de hotel e ouvem a discussão, chegam a opinar sobre a escolha de Cecilia. O princípio do cinema invertido: as personagens do filme de olhos fixos na sala de exibição, vivendo e sofrendo com o desfecho da história. Sheppard, o ator, diz a Cecilia que a ama. Cecilia volta-se para Tom, a personagem e diz:

-        Procure entender Tom, no seu mundo tudo acaba dando certo. Sou um ser humano, tenho que escolher o mundo real, apesar da tentação.

Tom volta para dentro da tela. Cecilia e Sheppard saem da sala, as personagens também vão deixando a sala do hotel em que estavam. Fica o vazio, dentro e fora do cinema, personagens e público não vivem um sem o outro. Na última cena do filme, Woody Allen reconcilia-os e faz sua declaração de amor ao cinema.

Cecilia vai em casa buscar suas malas para ir embora com Sheppard. O encontro foi marcado para a porta do cinema. Ela chega, um homem está trocando os letreiros da fachada. O gerente sai do cinema e conversa com Cecília, dizendo a ela que Gill Sheppard fora embora, voltara para Hollywood:

-        Assim que Tom voltou para a tela, Gill já estava louco para ir embora. Disse que a carreira esteve por um triz. – o gerente vai embora e de longe, a avisa – Não se esqueça, Fred Astaire e Ginger Rogers estréiam hoje.

Corte para cena de Gill Sheppard no avião. Ele tem o semblante triste, pensativo. Começa a tocar a música “Cheek to Cheek”. Corte para cena do filme O Picolino (Top Hat, EUA, 1935,) de Mark Sandrick. Fred Astaire está cantando a música enquanto dança com Ginger Rogers.

Cecilia entra no cinema, ainda com as malas na mão, senta-se mas não olha para a tela. Fred Astaire agora dança com sua parceira. Como no início do filme, Cecilia está só, ela e o cinema. Tem o olhar baixo, fixo na cadeira ao seu lado. À medida que ouve a música, ela levanta os olhos e encara a tela. A câmara fixa-se em Cecilia, um close-up, mostrando as faces e o olhar da personagem voltando à vida. Fred Astaire canta e dança com Ginger Rogers. Cecilia olha, seus lábios esboçam um sorriso. É o olhar do espectador de cinema: impotente, mas apaixonado. O público pode não ter conseguido ainda entrar no cinema, participar, interferir. Mas o olhar de Cecilia na cena final de A Rosa Púrpura do Cairo mostra que o cinema sempre esteve dentro de nós.

Memórias | Woody Allen

novembro 26, 2011

Estou revendo os filmes de Woody Allen pensando em escrever um artigo. Como muita gente de minha geração, fiquei fascinado com Meia-noite em Paris e as mil referências que o diretor faz a músicas, livros e filmes. Impossível não se encantar, vivemos mesmo embalados pelo passado.

Nesta revisão, reafirmo uma opinião: Memórias é o melhor Woody Allen. Gosto muito de A rosa púrpura do Cairo (o filme fecha a minha dissertação de mestrado), é um filme carinhoso, terno com o cinema. Cinema também é o tema de Memórias, porém com um olhar mais crítico, ácido com o sistema de Hollywood. Em um trecho do livro que estou lendo, A literatura através do cinema, Robert Stam aponta a vanguarda deste filme:

“Sandy Bates, o cineasta neurótico de Memórias (1980), neste sentido, é claramente um descendente contemporâneo do Homem do Subterrâneo. Allen lança-se como um diretor de celebridades que, relutante, assiste a uma retrospectiva em sua homenagem, em que ele é obrigado a ouvir os elogios bajuladores de seus fãs e a censura inane de seus críticos. (…). Os filmes reflexivos (talvez até mais do que os romances reflexivos) muitas vezes foram tidos como ‘objetos ruins’ na opinião dos críticos, que condenam sua sabotagem dos prazeres convencionais da ilusão e da identificação. Não é por acaso que o filme mais desprezado de Woody Allen seja também aquele mais autoconsciente e vanguardista.”

Asas do desejo

novembro 10, 2011

Revi esta semana Asas do desejo (Der himmel uber Berlin, Alemanha, 1987), de Wim Wenders. A nostalgia que invade o cinema não é só de produtores que estão refilmando tudo que podem e não podem destes anos 80, a última grande década do cinema. Também volto a esta época com a sensação de quem passava horas dentro dos cinemas no mais puro estágio de contemplação.

O anjo Dammiel (Bruno Ganz) com o olhar perdido e apaixonado vislumbrando Berlim do alto é de uma beleza melancólica. Ele pode ver sua amada nua, pode ouvir seus pensamentos, pode sofrer com ela, mas não pode tocá-la. Amar sem poder tocar é poesia refletida no olhar de personagens como Dammiel e Edward mãos de tesoura. “Imaginei que eles não podem ter um outro olhar que um olhar terno, o olhar do amor” – refletiu Wenders sobre os seus anjos de Asas do desejo. Creio que falta o olhar de anjos neste mundo e neste cinema que caminha cada vez mais para a  instantaneidade.


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